segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Como me fiz



Meu passado tem cheiro de goiabeira sem goiaba.
Pitangueira derrubada, jaboticabeira arrancada...
Tem o gosto estranho da quente grama úmida nos pezinhos,
De tatu-bola, caramujo, piolho de cobra e joaninha no canto do portão.
Tem cor de pesadelo à noite e da cama quentinha da mãe e do pai.
Ai, meu passado tem lembranças do gosto do leite materno amargo
E a textura suculenta de Cremogema Chocolate.
Meu passado tem medo de bueiro na esquina olhando para mim
Tem medo de bicho-papão pegar a vó que ficou sozinha em casa.
Tem pavor de formiga e de esquecer do vô que sequer me viu nascer...
Ô cheirinho bom de começo de chuva que tem o meu passado!
Tem ânsia de maria-fedida no buraco do muro da frente
Tem saudade do medo de trovão e curta distância do pouso da vó.
Meu passado passou todo o tempo chorando pelo fim do Papai Noel que nunca, meu Deus, nunca existiu.
Avião que trazia irmãozinho
Velho do saco que roubava criança
Coleção de caixinha de linha Corrente
Vizinha torrando café cheiroso...
Que saudade medonha do meu passado!
Da vitamina ralinha de banana para passar no furinho do bico da mamadeira
Ser a última da fila, a maior menina da turma
De perder lápis-de-cor no assoalho velho da sala de aula
Comer terra, correr de cachorro, apanhar de pintinho
Das mentiras, melhor, fértil imaginação que me levava a voar pelos ares quentes da Índia e congelantes da Escócia.
Êta falta que me faz irmãozinho que só sabe babar
Babá que corre pela casa atendendo aos quatro mil que eram dois.
Ave Maria, que falta que me faz a canção do "mosquitinho" nos corredores do prezinho "e a batida do coraçãozinho"...
Das tias que hoje não podem ser chamadas de tias, porque daí já é uma ofensa!
Que saudade do meu passado, não da minha infância
-A infância brincará sempre em meu futuro...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Canção

Existe uma pessoa
Com quem divido minhas dores
-Menos as dos meus amores!
Mal sabe ele a quem
Devoto meu coração.
Existe uma pessoa
A quem eu chamo canção
Porque a cada melodia,
Cada música que canto,
Meu Deus, eu o amo tanto
Que minha dor se faz feliz!
E eu já até que quis
Uma vez lhe dar carinho...
Passei na dose do vinho,
Luz apagada, roupa engraçada, tudo tão certo!
E ele tão perto! E ele tão perto!
Que esperto que ele foi
Ao tentar fugir de mim!
Ele me falou assim:
Amiga, anjo querido,
O sono está me vencendo...
Eu ali, toda tremendo
Esperando um sorriso
E ele meio de improviso
Me contou uma historinha:
“Havia uma menininha
Que chamava – e pôs meu nome”
Mas a voz aos poucos some
E eu sei que o sono venceu...
Que vontade que me deu
De acarinhar-lhe os cabelos,
Cobrir de zelos seu rosto
Beijar com os lábios da alma,
Tocar com a face a palma
Da mão que no outro dia
Acordou-me beliscando...
Achei que estava sonhando!
Os dedos que eu venerava
Os olhos que eu fitava
Com toda minha paixão!
Eu amo cá no meu canto
Um moço chamado canção.

Resposta

Sabe o que resta
Com o passar dos anos?
A real beleza
Isenta de enganos
Dos teus olhos ternos
Que meu sono velam
Das tuas mãos precisas
Que o mundo revelam
Do teu peito imenso
Que meu sonho abriga
Do teu jeito lindo
Que meu passo instiga
Do teu beijo, abrigo
Dos meus lábios frios
Do teu riso largo
Preenchendo vazios
Do abraço, morada
Onde morre o medo
Do pulso doído
Batendo em segredo
Da tua voz intensa
Ilhada em doçura
Da água que vem
Da fonte mais pura
Do adeus esperando
Um breve retorno
Da volta atrasada
Mas com corpo morno.
Entende o que resta
Com o passar dos anos?
Sua real beleza
Isenta de enganos.

Superlotado




Meu coração emperrado
Quase impossível de abrir:
Não dá para entrar
Nem para sair.

Ficou tanta gente de fora
Estão já a me implorar:
"Me dê uma brechinha
Que eu consigo entrar!"

Eu penso, eu peço, eu passo
Quase todo o tempo pensando
Lá dentro ou cá fora
Em quem está esperando

Cá fora, esses que aguardam
Estão reclamando a mim
Pois o ar é frio
E o tempo ruim

Mas eu me preocupo mesmo
Com os outros que estão trancados
Quietos para não
Morrer sufocados

Poeminha Relâmpago



Sinto uma saudade de você
Como quem sente falta de si mesmo.
É como olhar pra frente e ver passado.
É como, atrasado, andar a esmo.


E é um amor como quem ama a poesia,
um adimirar como se pasma com a alegria.
Realizar-se como se fossem minhas conquistas.


É passar, discreto, espalhando pistas.
E mesmo dando falta dos cabides pretos,
amar a sua nova roupa, colorida.